Quinta-feira, 28.07.16

João

Não há forma de saber o que se passou no teu coração quando chegou o momento. Tinhas demasiada vida a correr-te nas veias para te ires tão cedo, a namorada com que sempre sonhaste e os amigos que esperavas que nunca te abandonassem. Eu não estava perto de ti porque nem sabia que estavas doente, mas no final tiveste de enfrentar Deus sozinho.

 

Já não me lembro de quando te conheci, mas deve ter sido numa das nossas primeiras aulas, a observar tudo com os olhos bem abertos, cheios de esperança. Tudo o que restou de ti são estas memórias que se recusam a desaparecer. Tu sentado à minha espera na universidade, não tinhas fantasias de felicidade suprema, mas querias somente ser como outro qualquer. 

 

Não tinhas medo da morte, simplesmente não querias morrer. Mas será que rezaste mesmo não acreditando em Deus? E estavas a dormir no teu último suspiro ou confrontaste os teus demónios? Não sei onde estás agora, só sei que vais repousar sempre nestas palavras, agora que tudo o resto terminou, como nos filmes que víamos juntos e que eu agora vejo sozinho. Foste o amigo que todos queriam ter, porém fiz como todas as pessoas estúpidas e só te valorizei quando desapareceste.

 

Querias ser o herói principal, nem que fosse por uma única vez e só o conseguiste ser deitado no caixão, irreconhecível, com todos a perguntarem-se como é que tudo aconteceu. Quis acabar com aquilo, dizer-te para te levantares dali e vires comigo falar do tempo que ainda nos faltava viver. Mas não fiz nada e continuaste deitado, sem vida, como se estivesses realmente morto.

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Segunda-feira, 29.02.16

Regresso

Ainda te consigo saborear nas minhas mãos

o teu sorriso estampado na minha face

no beijo ainda marcado nos meus lábios,

na diferença do que sou e do que fui contigo

por isso não me voltes a falar em despedidas.

A única coisa que quero ouvir é que ainda me amas

e que não demoras a voltar para casa.

 

Gostava que olhasses para trás e me visses

a chorar por ti como uma criança,

em mim apenas um espaço vazio

onde eu gostava de voltar a sorrir

e ser aquilo que esperavas que eu seja.

Talvez assim tornasses a pensar em nós

e voltasses para casa.

 

Anoitece, está frio e não sei onde estás,

tenho medo que te tenhas esquecido de mim

ou perdido a esperança que eu um dia seja bom,

talvez tenhas deixado de querer estar sozinha

e encontrado quem te faça mesmo feliz.

Vou sentar-me aqui na beira da estrada

à espera que o caminho me faça voltar para casa.

 

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Domingo, 07.02.16

Esquecimento

Como se esquece alguém que se ama?

 

Não se esquece. Se é amor verdadeiro, não há nada a fazer. Mas a grande maioria das pessoas passa a vida inteira sem saber o que é o amor a sério, sem conhecer que há um mundo maravilhoso que elas não fazem ideia. Outras ainda vislumbram-no ao longe, mas logo o rejeitam, por medo, porque o verdadeiro amor requer coragem, sacrifício e, às vezes, uma dor que nos amaldiçoa a viajar para sempre sozinhos, vazios, perdidos no círculo da vida. Porque a liberdade de vontade, a morte ou até, muito simplesmente, o desencontro, podem partir em dois o que era suposto ser apenas um.

 

Amar não é para todos, na verdade é para muito poucos. As pessoas contentam-se com um sentimento descartável e negociável a que chamam de amor, mas que é falsificado, uma mentira que contam a si próprias em pequenas novelas baratas onde elas próprias são o personagem principal. Tenho pena desse amor e dessas pessoas, com tantas histórias para contar, cada uma mais medíocre que a anterior, cheias de conselhos e comprimidos, escapes e alternativas. 

 

O amor são dois seres que se tornam um, dissolvendo-se sem perder a identidade e a independência, numa aritmética que a ciência nunca poderá explicar. Entregar-se todo, totalmente, ao outro, sem reservas, medos ou preconceitos, esquecer-se de si próprio, é para muito poucos. Há sempre desculpas, amores-próprios cheios de uma alarve luxúria a que a sociedade obriga, sentimentos que se desfazem no vento. Quem se contenta com esse amor, sabendo que há outro, vive no medo, no terror de ser magoado, trucidado, esmagado pela liberdade de vontade do outro. Mas quem a teme nunca poderá, ele próprio, ser livre.

 

A verdade é que há coisas piores do que se viver e morrer sozinho. O mal é que a grande maioria das pessoas percebe isto demasiado tarde. Só se pode fazer o luto de alguém quando este morre, se o fizermos antes estamos a matar-nos a nós mesmos, a fazer o luto de nós próprios até finalmente morrermos, de cobardia, de auto-comiseração e de vulgaridade. Porque o verdadeiro amor fica, permanece neste mundo muito depois da nossa passagem, com sinais visíveis que a mediocridade crescente não pode cegar.

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Domingo, 21.12.14

Tempo

Estas feridas não parecem cicatrizar, há demasiadas coisas que o tempo não consegue apagar. O teu beijo, que me fazia perder no fogo da nossa paixão, o teu abraço, que não me conseguia aproximar o suficiente de ti, o teu sabor, que me mostrava um desejo que não conhecia. A tua pele na minha e o espaço entre nós deixava de existir, o teu peito no meu e o coração explodia, os teus olhos nos meus e o mundo era só nosso.

 

Há tanta gente que julga saber o que é o amor, mas que o deita fora na primeira contrariedade. Eu sei o que é o amor, ainda o sinto depois de tanto tempo, nas pontas dos meus dedos, nas bordas do que sou e do que restou de mim. Depois de tanto tempo, a minha dor ainda é demasiado real. Não estou contigo, mas quando choras, gostava de ser eu a limpar as tuas lágrimas, quando tremes, queria ser eu a lutar contra os teus medos.

 

Hoje sou escravo de um passado onde te deixei sozinha, é algo com que vou ter de viver todos os dias. Ainda vai passar muito mais tempo. Não sei qual foi o momento em que tudo mudou, mas dava tudo para voltar atrás e mudar tudo de volta. Bastou um piscar de olhos para que o meu inferno começasse. E nunca mais terminou.

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Sexta-feira, 05.12.14

Frio

Diz alguma coisa antes que eu desista de ti. As árvores dançam nuas ao ritmo do vento gelado, as folhas levantam-se a voar como anjos que sobrevoam entre os troncos descoloridos, a terra agreste traz o cheiro cru a madeira fresca. Caem ramos que já são apenas paus secos, que eram antes uma sinfonia de cores e vida, mas que agora dão o último suspiro antes da morte certa, prestes a serem enterrados no solo sagrado, entre as folhas e a terra que os suga.

Diz alguma coisa que eu vou desistir de ti. O sol de inverno está quente, confortável, insinuando-se entre as criaturas como vencedor do frio. As nuvens espreguiçam-se no céu azul claro, pequenos flocos de algodão a decorar a imensidão do espaço aberto.  Já quase não há pássaros a rondar o ar, só alguns que ficaram e se preparam com ninhos quentes e aconchegantes para a crueldade do mau tempo que aí vem, mais tarde ou mais cedo.

Teria ido para qualquer lugar onde tu fosses. Agora está bom tempo, mas amanhã o diabo vai estar outra vez à solta entre os mais fracos, a cuspir gelo e dor e morte. Mas hoje é tempo de festejar, ir até onde os raios de sol nos levam, sermos arrastados pelo vento sem destino. E ir ao teu encontro, lá onde o meu coração está há séculos em carne viva, à espera que digas alguma coisa antes que eu desista de ti.

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Terça-feira, 25.11.14

Abandono

Eu a chorar como uma criança e diziam-me, “que paciência,” reviravam os olhos, mexiam-se de um lado para o outro, “olha que as pessoas podem ouvir-te,” ter de aturar problemas que eram apenas da minha conta, como me atrevia a pensar que era o centro do mundo, “que paciência,” como se eu não pudesse chorar mais baixo ou enfrentar as coisas tal como aqueles ditados populares tão sabedores diziam. Eu a pedir, a suplicar para que ela não me abandonasse, mas eram explicações que já não lhe diziam respeito, a decisão estava tomada, “deixa-me em paz,” sim, porque a minha figura ridícula de joelhos a pedir que não me deixasse, tirava-lhe a paz, tirava a paz do mundo, “que paciência,” ela a arrumar as coisas numa decisão que já tinha tomado há muito, mas a fazer o teatro como se fosse uma decisão instintiva de quem já não aguentava que a deixassem sem paz, “que paciência,” para ela os papéis estavam bem delineados na cabeça e eu não era o mártir, para mim não havia papéis: só a dor infinita, que eu não julgava humanamente possível, de ficar sem ela, “deixa-me em paz,” o problema foi eu ter deixado em paz vezes demais, negligenciado atenção – não sei como pude cometer tal erro, eu era o servo que a devia manter entretida e feliz em todos os segundos da vida, não sei como pude ocupar-me com coisas da minha vida e esperar partilha e compreensão, “olha que as pessoas podem ouvir-te”, isso faz parte dos romances que perdi muito tempo a ler em vez de a ter deixado em paz vezes demais, mas agora, “deixa-me em paz” porque era tarde demais e ela queria que eu ficasse tatuado com esta imagem no cérebro.

 

Era inútil pedir explicações, “já falei,” mesmo não tendo compreendido nada, ela não ia ter pena, ela não ia responder a nada, “que paciência,” ela só tinha orgulho a percorrer-lhe as veias, nada mais, naquele momento só a vingança a podia satisfazer, ver-me mais humilhado, por isso deixei-a em paz, já o tinha feito, sabia tão bem fazê-lo. Quando perguntei aos amigos, todos eles sempre tinham uma resposta pronta debaixo da língua, uma frase feita, um ditado popular tão sabedor, porém nunca respondiam a nada do que eu queria saber, por isso voltava a perguntar e eles ofendiam-se, “que paciência,” como se além de ocupar o tempo precioso, ainda pudesse estar a duvidar da palavra deles, a frase feita que o personagem da novela das cinco disse tão bem, era aquilo que respondia, aquilo que me ia curar e se eu não soubesse ouvir é porque era um mal-agradecido que merecia estar mal. E afastavam-se, uma vez a falar sobre o assunto eram vezes demais e toda a gente sabe que a má sorte é contagiosa, “imagina se aquilo nos acontecia a nós,” eu era uma lesma gigante a conspurcar os sítios por onde passava, completamente nojento, “não, amorzinho, jamais, nós somos o casal perfeito,” ao menos ajudava a estimular a confiança dos amigos, ou pelo menos é assim que a sociedade lhes chama, apesar de, “que paciência,” não saberem muito bem o que é um favor sem outro favor em troca. Passaram meses e anos e eu continuei a sofrer o abandono, sem saber muito bem porque aconteceu, mas com a certeza de todos os dias estar a ficar melhor, a morrer um bocadinho menos por amor.

publicado por Dita Dura às 23:09 | link do post | comentar
Segunda-feira, 10.11.14

Adeus

Escrevo-te, enquanto procuro alcançar a paz, perdoando-me pelos erros que cometi e perdoando-te teres-me abandonado. Os meus maiores enganos foram não ter dito mais vezes o que sentia por ti, não te ter apertado com a força do sentimento, as horas perdidas com preocupações sem sentido. Está a ser difícil esquecer o nosso último dia, em que te implorei para que não me deixasses, mas que acabaste por ir na mesma. Espero que saibas que foi aqui que terminámos, não em outro dia que te dá mais jeito para te libertares da culpa. Só depois disto estar resolvido de vez é que poderei alcançar a paz que procuro tanto.

Estou a tentar ser um homem diferente, melhor, aprendendo com os erros que tanto me fizeram sofrer. Sei que foi preciso muita força para te suportar naqueles dias que foram tão difíceis para ti, mas espero que saibas que toda a paciência que tive foi um ato de amor. Não vejo essas horas com raiva ou ressentimento, apenas com o carinho de alguém que trata a constipação do parceiro doente. Podia ter sido mais ternurento e sensível, porém tudo o que fiz foi para o teu bem.

Mais do que os momentos que nos separaram, ficou o tempo que nos juntou, as memórias dos passeios pela cidade, a vida que partilhámos em todos aqueles dias e noites de amor puro. A verdade é que foste a única verdadeira relação da minha vida, a única que me fez sentir vivo, com vontade de viver mais. Aquilo que construímos em conjunto é algo que nunca se repetirá, fazem parte de uma época que aconteceu por acaso, como as peças de um relógio que se abanam dentro de uma caixa e, por uma vez sem igual, aparece o relógio montado dentro da caixa.

 

publicado por Dita Dura às 23:08 | link do post | comentar
Domingo, 12.10.14

Requiem

Diz alguma coisa antes que comece a chorar

Eu vou ser quem sempre quiseste que fosse

Não sou perfeito por isso desculpa ter-te magoado

É algo com que vou ter de viver todos os dias

 

Diz alguma coisa senão começo a chorar

Eu só agora é que sei como amar-te

Desculpa todo o sofrimento que te fiz passar

Queria ser aquele que limpa todas as tuas lágrimas

 

Desculpa não ter conseguido chegar até ti

Apesar de seguir-te onde quer que fosses

Digo a mim mesmo que já desisti de ti

Mas ninguém imagina o quanto ainda te amo

 

Desculpa não ter sido quem esperavas que fosse

Só depois descobri uma razão para ser diferente

Dava tudo por mais dois minutos contigo

O meu coração explode ao imaginar-te comigo

 

Eu sentia-me sempre tão pequeno ao teu lado

Quando olhava nos teus olhos e via o amor

Onde quer que fosses eu iria atrás de ti

Ainda não acredito que te foste sem mim

publicado por Dita Dura às 23:06 | link do post | comentar
Sábado, 04.10.14

Paranóia

Deus coloca uma mente
no maravilhoso corpo das mulheres
e às vezes também coloca uma alma
que nunca chegamos a conhecer

quando chega a altura 
elas sabem bem o que fazer
para nos levar a acreditar
que encontrámos o amor

carne com carne
braço no braço
perna na perna
coração no vazio

saímos e entramos
de camas estranhas
num ritmo frenético
para encontrar a tal

suportamos as malucas
acariciamos o seu egoísmo
beijamos a sua paranóia
porque acreditamos serem a única

ela não existe e sabemos
mas um dia cansamo-nos
das mulheres loucas
e descansamos numa mais útil

nós damos tudo o que temos
e no final ficam apenas as lembranças
doridas
de momentos que não nos pertenceram

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Sexta-feira, 29.08.14

Domesticado

cidadão domesticado mais competitivo

amizades úteis que fazem sempre bem

empatia benigna sem dor nem tristeza

amar enquanto durar um namorado controlável

beijar sem trincar com a técnica perfeita

paixão controlada em total segurança

nunca esquecer o banho antes do sexo

ter apenas um filho quase aos quarenta

prazer por prazer e favores por favores

sem chorar em público nem revelar fraqueza

opinião sobre tudo mas sempre inofensiva

sem religião nem valores sobrenaturais

apenas a glória suprema do ser humano

preso numa jaula feita de jornais velhos

publicado por Dita Dura às 23:53 | link do post | comentar

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