Morreste

Morreste, João. Soube hoje, nem sequer sabia que estavas doente, foi um choque tremendo. Eras mais novo que eu, por isso parece impossível, injusto, arbitrário. Disseram-me que sofreste muito, passaste mais de um ano em tratamentos dolorosos e eu nem sequer sabia que estavas doente. Foi o cancro, esse animal nojento que se alimenta de familiares e amigos. Nem todas as quimioterapias e radioterapias te ajudaram, mas mantiveste sempre a esperança e a coragem.

 

Não te consigo imaginar doente. Nos nossos tempos da Universidade, estavas sempre bem, mesmo depois das noitadas infinitas, estavas sempre pronto para outra. Passámos por grandes momentos, isso é certo. Um dia, há quatro ou cinco anos, fomos por caminhos separados. Provavelmente por causa de uma estupidez ou simplesmente porque eu estava à espera de ter tempo para te ligar. Esperei tempo demais e agora dói o arrependimento de ter pensado que ainda haveria muito tempo para recuperarmos os dias perdidos.

 

Hoje fui ao teu velório. Entrei e saí da sala como se me tivesse enganado no local. Não te reconheci, deitado, prostrado, como se estivesses à espera que alguém te acordasse. Estavas magro, tu que sempre foste gordinho. Estavas a dormir e por pouco não te abanei para que acordasses - que grande susto nos pregaste a todos, anda daí tomar uma cerveja, relembrar os velhos tempos e construir novos momentos que havemos de lembrar a rir daqui a vinte anos.

 

Está tudo bem e de repente vem a morte, implacável, cruel, surda. Primeiro sentimos o seu cheiro putrefato e depois entranha-se no corpo e na alma. Somos energia e força mas quando morremos acaba tudo, o silêncio instala-se e o vazio irrompe onde dantes era o mundo. Não sei mais o que dizer, não sei o que fazer. Morreste, João.

 

Em memória de João Fernandes Silva

1980-2013

publicado por Dita Dura às 00:47 | link do post | comentar