Abandono

Eu a chorar como uma criança e diziam-me, “que paciência,” reviravam os olhos, mexiam-se de um lado para o outro, “olha que as pessoas podem ouvir-te,” ter de aturar problemas que eram apenas da minha conta, como me atrevia a pensar que era o centro do mundo, “que paciência,” como se eu não pudesse chorar mais baixo ou enfrentar as coisas tal como aqueles ditados populares tão sabedores diziam. Eu a pedir, a suplicar para que ela não me abandonasse, mas eram explicações que já não lhe diziam respeito, a decisão estava tomada, “deixa-me em paz,” sim, porque a minha figura ridícula de joelhos a pedir que não me deixasse, tirava-lhe a paz, tirava a paz do mundo, “que paciência,” ela a arrumar as coisas numa decisão que já tinha tomado há muito, mas a fazer o teatro como se fosse uma decisão instintiva de quem já não aguentava que a deixassem sem paz, “que paciência,” para ela os papéis estavam bem delineados na cabeça e eu não era o mártir, para mim não havia papéis: só a dor infinita, que eu não julgava humanamente possível, de ficar sem ela, “deixa-me em paz,” o problema foi eu ter deixado em paz vezes demais, negligenciado atenção – não sei como pude cometer tal erro, eu era o servo que a devia manter entretida e feliz em todos os segundos da vida, não sei como pude ocupar-me com coisas da minha vida e esperar partilha e compreensão, “olha que as pessoas podem ouvir-te”, isso faz parte dos romances que perdi muito tempo a ler em vez de a ter deixado em paz vezes demais, mas agora, “deixa-me em paz” porque era tarde demais e ela queria que eu ficasse tatuado com esta imagem no cérebro.

 

Era inútil pedir explicações, “já falei,” mesmo não tendo compreendido nada, ela não ia ter pena, ela não ia responder a nada, “que paciência,” ela só tinha orgulho a percorrer-lhe as veias, nada mais, naquele momento só a vingança a podia satisfazer, ver-me mais humilhado, por isso deixei-a em paz, já o tinha feito, sabia tão bem fazê-lo. Quando perguntei aos amigos, todos eles sempre tinham uma resposta pronta debaixo da língua, uma frase feita, um ditado popular tão sabedor, porém nunca respondiam a nada do que eu queria saber, por isso voltava a perguntar e eles ofendiam-se, “que paciência,” como se além de ocupar o tempo precioso, ainda pudesse estar a duvidar da palavra deles, a frase feita que o personagem da novela das cinco disse tão bem, era aquilo que respondia, aquilo que me ia curar e se eu não soubesse ouvir é porque era um mal-agradecido que merecia estar mal. E afastavam-se, uma vez a falar sobre o assunto eram vezes demais e toda a gente sabe que a má sorte é contagiosa, “imagina se aquilo nos acontecia a nós,” eu era uma lesma gigante a conspurcar os sítios por onde passava, completamente nojento, “não, amorzinho, jamais, nós somos o casal perfeito,” ao menos ajudava a estimular a confiança dos amigos, ou pelo menos é assim que a sociedade lhes chama, apesar de, “que paciência,” não saberem muito bem o que é um favor sem outro favor em troca. Passaram meses e anos e eu continuei a sofrer o abandono, sem saber muito bem porque aconteceu, mas com a certeza de todos os dias estar a ficar melhor, a morrer um bocadinho menos por amor.

publicado por Dita Dura às 23:09 | link do post | comentar