Divergente

O Paulo esteve preso durante vinte e cinco anos. Na última vez que esteve cá fora, o presidente era o Mário Soares, existiam países como a Checoslováquia, a República Democrática Alemã e a Jugoslávia, o Mandela ainda estava preso e a homossexualidade era considerada uma doença pela Organização Mundial de Saúde. A primeira vez que colocou um pé na rua, teve medo. Era um mundo estranho, sentia-se uma criança pequena a dar os primeiros passos, a descobrir coisas novas aos apalpões, a perceber que tudo era muito maior do que se lembrava.
Quando conheceu a Laura, sentada naquele parque à hora de almoço, parecia que o mundo tinha ficado menos assustador, mais suave. Finalmente, começou a sentir-se verdadeiramente livre.
"Podemos ir sair esta noite?" Perguntou com um sorriso nos lábios.
"Já há muito tempo que não saio com alguém," respondeu ela envergonhada.
"Vamos ao cinema, ao Lumíere ou ao Pedro Cem?" Inquiriu ansiosamente ele.
"Já não existem esses cinemas," declarou a Laura, um pouco confusa.
"Bom, então podemos ir ao Brasília, ao Charlot, ou então ao Dallas," afirmou o Paulo.
"Também já não há nada disso, só grandes shoppings noutros sítios," disse ela.
"Está bem, então vamos onde a menina quiser," declarou ele.
"Eu ainda não disse que ia sair consigo," explicou ela, um pouco relutante.
Ficaram em silêncio durante algum tempo. A Laura ainda sabia muito pouco do Paulo e deixar-se levar pelas emoções podia ser perigoso. Mas por outro lado, já tinham estado a conversar durante muitos dias seguidos, todas as horas de almoço desde há duas semanas. Era estranho que falassem tanto sobre tudo menos sobre eles próprios - talvez não interessasse, ou talvez ambos tivessem algo a esconder. Ela sabia que tinha, algo que ele seria incapaz de compreender, por isso pensou várias vezes em despachá-lo, ir embora, sair para bem longe dele. Mas passadas duas semanas isso ia ser muito difícil, ele já tinha entrado dentro do coração dela, não saberia nem como começar a esquecer aquelas conversas.
"O que sugere então?" Questionou ele com um ar triste que ela achou irresistível.
Ela não sabia o que sugerir. Na verdade, não sabia nada, estava muito confusa. Talvez fossem as noites sem dormir, a pensar na próxima hora de almoço.
"Deixamos para amanhã para falar nisso," afirmou ela, tentando fugir à expectativa e ao silêncio.
"Está bem," disse ele, despedindo-se brevemente; primeiro, desolado, mas depois corajosamente, "até amanhã então, mal posso esperar."
Ele parecia-lhe uma criança. Mal sabia ela o quão perto da verdade estava. Respirou fundo e começou a caminhar. Tinha uma ideia fixa na cabeça, apesar de saber que era cruel e sem sentido: amanhã não iria aparecer, nem depois, nem na semana seguinte, nem nunca mais. Ele nunca lhe pediu o número de telemóvel ou qualquer dado pessoal, por isso sabia que nunca haveria de a encontrar. Sentia-se horrivelmente por fazer aquilo, mas tinha de ser. Ele era tão puro e frágil, jamais poderia descobrir o segredo dela. Aquela tinha sido a despedida.

publicado por Dita Dura às 21:13 | link do post | comentar