Esquecimento

Como se esquece alguém que se ama?

 

Não se esquece. Se é amor verdadeiro, não há nada a fazer. Mas a grande maioria das pessoas passa a vida inteira sem saber o que é o amor a sério, sem conhecer que há um mundo maravilhoso que elas não fazem ideia. Outras ainda vislumbram-no ao longe, mas logo o rejeitam, por medo, porque o verdadeiro amor requer coragem, sacrifício e, às vezes, uma dor que nos amaldiçoa a viajar para sempre sozinhos, vazios, perdidos no círculo da vida. Porque a liberdade de vontade, a morte ou até, muito simplesmente, o desencontro, podem partir em dois o que era suposto ser apenas um.

 

Amar não é para todos, na verdade é para muito poucos. As pessoas contentam-se com um sentimento descartável e negociável a que chamam de amor, mas que é falsificado, uma mentira que contam a si próprias em pequenas novelas baratas onde elas próprias são o personagem principal. Tenho pena desse amor e dessas pessoas, com tantas histórias para contar, cada uma mais medíocre que a anterior, cheias de conselhos e comprimidos, escapes e alternativas. 

 

O amor são dois seres que se tornam um, dissolvendo-se sem perder a identidade e a independência, numa aritmética que a ciência nunca poderá explicar. Entregar-se todo, totalmente, ao outro, sem reservas, medos ou preconceitos, esquecer-se de si próprio, é para muito poucos. Há sempre desculpas, amores-próprios cheios de uma alarve luxúria a que a sociedade obriga, sentimentos que se desfazem no vento. Quem se contenta com esse amor, sabendo que há outro, vive no medo, no terror de ser magoado, trucidado, esmagado pela liberdade de vontade do outro. Mas quem a teme nunca poderá, ele próprio, ser livre.

 

A verdade é que há coisas piores do que se viver e morrer sozinho. O mal é que a grande maioria das pessoas percebe isto demasiado tarde. Só se pode fazer o luto de alguém quando este morre, se o fizermos antes estamos a matar-nos a nós mesmos, a fazer o luto de nós próprios até finalmente morrermos, de cobardia, de auto-comiseração e de vulgaridade. Porque o verdadeiro amor fica, permanece neste mundo muito depois da nossa passagem, com sinais visíveis que a mediocridade crescente não pode cegar.

publicado por Dita Dura às 09:15 | link do post | comentar