Frio

Diz alguma coisa antes que eu desista de ti. As árvores dançam nuas ao ritmo do vento gelado, as folhas levantam-se a voar como anjos que sobrevoam entre os troncos descoloridos, a terra agreste traz o cheiro cru a madeira fresca. Caem ramos que já são apenas paus secos, que eram antes uma sinfonia de cores e vida, mas que agora dão o último suspiro antes da morte certa, prestes a serem enterrados no solo sagrado, entre as folhas e a terra que os suga.

Diz alguma coisa que eu vou desistir de ti. O sol de inverno está quente, confortável, insinuando-se entre as criaturas como vencedor do frio. As nuvens espreguiçam-se no céu azul claro, pequenos flocos de algodão a decorar a imensidão do espaço aberto.  Já quase não há pássaros a rondar o ar, só alguns que ficaram e se preparam com ninhos quentes e aconchegantes para a crueldade do mau tempo que aí vem, mais tarde ou mais cedo.

Teria ido para qualquer lugar onde tu fosses. Agora está bom tempo, mas amanhã o diabo vai estar outra vez à solta entre os mais fracos, a cuspir gelo e dor e morte. Mas hoje é tempo de festejar, ir até onde os raios de sol nos levam, sermos arrastados pelo vento sem destino. E ir ao teu encontro, lá onde o meu coração está há séculos em carne viva, à espera que digas alguma coisa antes que eu desista de ti.

publicado por Dita Dura às 12:52 | link do post | comentar