João

Não há forma de saber o que se passou no teu coração quando chegou o momento. Tinhas demasiada vida a correr-te nas veias para te ires tão cedo, a namorada com que sempre sonhaste e os amigos que esperavas que nunca te abandonassem. Eu não estava perto de ti porque nem sabia que estavas doente, mas no final tiveste de enfrentar Deus sozinho.

 

Já não me lembro de quando te conheci, mas deve ter sido numa das nossas primeiras aulas, a observar tudo com os olhos bem abertos, cheios de esperança. Tudo o que restou de ti são estas memórias que se recusam a desaparecer. Tu sentado à minha espera na universidade, não tinhas fantasias de felicidade suprema, mas querias somente ser como outro qualquer. 

 

Não tinhas medo da morte, simplesmente não querias morrer. Mas será que rezaste mesmo não acreditando em Deus? E estavas a dormir no teu último suspiro ou confrontaste os teus demónios? Não sei onde estás agora, só sei que vais repousar sempre nestas palavras, agora que tudo o resto terminou, como nos filmes que víamos juntos e que eu agora vejo sozinho. Foste o amigo que todos queriam ter, porém fiz como todas as pessoas estúpidas e só te valorizei quando desapareceste.

 

Querias ser o herói principal, nem que fosse por uma única vez e só o conseguiste ser deitado no caixão, irreconhecível, com todos a perguntarem-se como é que tudo aconteceu. Quis acabar com aquilo, dizer-te para te levantares dali e vires comigo falar do tempo que ainda nos faltava viver. Mas não fiz nada e continuaste deitado, sem vida, como se estivesses realmente morto.

publicado por Dita Dura às 22:19 | link do post | comentar