Restos

Não quero voltar a amar. Estou cansado de cair sem me conseguir levantar e ficar sozinho enquanto o mundo continua a girar. Não posso voltar a amar. No final restam sempre apenas a mágoa e cicatrizes que ficam para sempre. Não quero uma relação, desisti da intimidade, da doação e tudo o resto soa-me a falso. Não quero sentir nada. Até já deixei há muito a autocomiseração e a falta de amor-próprio. Só restou a realidade pura e dura de quem não tem nada a esconder, nem sequer a falta de fé na natureza humana.

 

Se quiseres restos podes vir ter comigo. Tenho carência que podes fazer de conta que é carinho, solidão que pode ser companhia, raiva que podes confundir com paixão. Mas quero que saibas desde já que não tenho nada para te oferecer. Sou preguiçoso e pouco inteligente, tenho convicções muito frágeis e uma sabedoria muito limitada, não tenho ambições e quanto mais me conheceres, mais me vais desprezar.

 

Não te quero como irmã e não vou ser teu amigo, nem ouvir a história da tua vida. Estás a perder tempo se achas que vou conversar contigo ou se imaginas que me preocupo com os teus sentimentos. Não sou um solteirão apetecível e isto não é uma proposta romântica. Só vais encontrar decadência e leviandade, porque eu apenas quero um recipiente.

 

Não quero mais romances. Estou farto de significados. Não me volto a esforçar por palavras que se esgotam com o tempo. Depois de tudo o que passei, só aprendi que não tenho nada para ensinar. Tudo o que existe neste mundo, tudo o que sempre existiu, está no nada que me preenche a alma. O resto é apenas um amanhã feito de sensações mortas ao nascer.

publicado por Dita Dura às 15:28 | link do post | comentar